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A Educação pelo Ouvido

Texto do escritor Antônio Torres para a sua participação no Painel Educação e Cordel, durante o lançamento da Festa da Literatura de Cordel, em Fortaleza
Por Antônio Torres
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No mundo agrário e ágrafo dadonde eu vim – uma baixada de solidão e poeira no interior de um país chamado Infância, sem rádio e sem notícias das terras civilizadas, como cantava o Rei do Baião, e sem livros -, a literatura de cordel chegou antes da escola. Era o ABC do Sertão, também conhecido como Rimance, significando isto romance com rima. Quando por lá apareceu uma bendita professora para nos ensinar mais do que o bê-á-bá, já tínhamos os ouvidos educados pelas cantorias ao pé de um fogão de lenha, para espantar o medo da noite – uma noite povoada de zumbis, lobisomens, mulas sem cabeça, boitatás, gralhas mal-assombradas, almas penadas.

Uma recordação dessas tertúlias em noites antigas do passado deu asas à imaginação de um romancista, este que lhes fala, que ao bater um título assim: Se sua vida desse um romance, acabou escrevendo um capítulo de cento e tantas páginas do seu livro mais recente, Querida Cidade. Tudo puxado pela memória de um ponteio que precedia o rimance que a moça violeira sabia de cor:

Eu vou contar uma história

De um pavão misterioso

Que levou voo da Grécia

Com um rapaz corajoso

Raptando uma condessa

Filha de um conde orgulhoso

Ao fascínio do Romance do Pavão Misterioso seguiam-se as façanhas póstumas do rei do cangaço, que ao chegar ao inferno o reduzia a cacos, e outros clássicos do gênero, como um intitulado Proezas de João Grilo, aquele cristão que nasceu antes do dia,/ criou-se sem formosura,/ e morreu depois da hora,/ pelas artes que fazia, e renasceu na peça O Auto da Compadecida, emprestado a Ariano Suassuna, para que ele escrevesse o texto mais popular do teatro brasileiro, na avaliação do abalizado crítico Sábato Magaldi, que pertenceu à Academia Brasileira de Letras, assim como Ariano, que de 1990 até a sua morte, em 2014, ocupou a cadeira 32 da Casa de Machado de Assis, para onde levou a sua fé inabalável de que “a arte deve ser porta-voz da coletividade e do indivíduo, em consonância com o espírito profundo do nosso povo”.

Em absoluta consonância com isso já estava um dos fundadores da ABL, Sílvio Romero, que em discurso lá, em 1913 – ou seja, há 110 anos -, disse: “Se vocês querem poesia, mas poesia de verdade, entrem no povo, metam-se por aí, por esses rincões, passem uma noite num rancho, à beira do fogo, entre violeiros, ouvindo trovas de desafio”, como lembra agora um acadêmico, escritor e cordelista, o pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho, autor dos versos do disco Cantorias de Pé de Parede, com Ivanildo e Oliveira, que chegou a ser um dos 10 mais vendidos em Pernambuco.

Venho desse povo. O povo do sertão, onde uma pedra de nascença entranha a alma, como nos ensinou João Cabral de Melo Neto, um de nossos maiores poetas de todos os tempos, sabemos todos, em A educação pela pedra. E não nos esqueçamos, nunca, jamais, o quanto João Cabral bebeu nas fontes da literatura de cordel para escrever Morte e Vida Severina, poema narrativo tido como a sua obra-prima, e que virou música – e por Chico Buarque -, e foi adaptado para o teatro, o cinema, a televisão, o desenho animado, enfim, deu uma enorme popularidade nacional a João Cabral, e levou o seu nome ao mundo, numa prova inequívoca de quão longe vai a força, o alcance, a influência do ABC do Sertão.

Agora, falemos um pouco do outro, o ABC propriamente dito, cheio de letras que davam nome a tudo que há na Terra e no céu, como explicava a mãe de um menino ao lhe mostrar um abecedário, dias antes de leva-lo a uma escola rural, na qual chegou – o menino – já sabendo que cada letra tinha a sua própria identidade e personalidade, como as coisas e as pessoas. A professora (chamava-se Serafina), percebendo o seu encanto ao juntá-las em sílabas – bê-á-bá, bê-e-bé, bê-i-bi…-, não demoraria a colocá-lo em cima de um palanque, logo na primeira comemoração do 7 de setembro. Com uma bandeira do Brasil numa mão e um poema de Castro Alves em outra, soltou a sua voz gasguita: “Auriverde pendão da minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança,/ Estandarte que a luz do sol encerra,/ E as divinas promessas da esperança”.

Em ouvidos já educados pela literatura de cordel, também se fazia música uma prosa poética escolar que começava assim:

“Verdes mares bravios, da minha terra natal, onde canta a jandaia na fronde da carnaúba…” Imaginem o efeito disso na mente de um menino de um lugar onde nem rio havia. Danou a sonhar com o mar.

E assim, entre a oralidade ao pé de um fogão e a didática na sala de aula, nasceria um escritor – que hoje ocupa na Academia Brasileira de Letras a cadeira de número 23, cujo patrono é ninguém menos do que José Verdes Mares Bravios da Minha Terra Natal de Alencar.

Mas sim: voltemos ao tema central desta fala, O Cordel e a Educação:

“Com as regras da gramática,

Irritava-se Pedrinho.

Dona Benta lhe deu aulas

Com paciência e carinho.

-

Porém, Emília sugere

Uma solução bem prática:

Que a turminha viajasse

Para o País da Gramática”.

-

Toda a turma concordou

E foram todos, assim,

Sobre o bom rinoceronte

Cujo nome era Quindim.

-

Em Portugália, eles viram

As palavras portuguesas.

Em Galópolis, acharam

Muitas palavras inglesas”.

Emília no país da gramática e Aritmética da Emília são dois dos vários livros de Monteiro Lobato adaptados para o cordel por Stélio Torquato Lima, e publicados, com capas de Jô Oliveira, pela Cordelaria Flor da Serra, da cidade de Maracanaú, Ceará. Por sorte, encontrei toda a coleção ao desembarcar no aeroporto Pinto Martins, aqui em Fortaleza, num dia de 2019.

Não poderia ter sido um achado mais feliz.

Naquela semana o locutor que lhes fala iria participar de uma maratona escolar criada pelo professor e acadêmico Arnaldo Niskier para a Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro em 2012, e que naquele ano de 2019 teria Monteiro Lobato como o escritor homenageado.

Com a coleção do cordelista cearense Stélio Torquato Lima em punho, foi só chamar os escolares da rede estadual carioca ao palco, de auditório em auditório, para que eles próprios garantissem o sucesso daquela maratona escolar:

“Após a viagem feita/ Para o País da Gramática, / Visconde teve a ideia/ De tratar de Matemática”.

Obrigado, meus mestres do ABC do Sertão.

Muito obrigado, Sebrae.

Antonio Torres – escritor e acadêmico da Academia Brasileira de Letras